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  • Eduardo Carlos Pereira

Núcleo Colonial da Glória (1877) O Monumento do Ipiranga*

Museu do Ipiranga, edifício monumental, no vazio. Janeiro de 1904

Sobre o NÚCLEO DA GLÓRIA, hoje não é possível identificar nada de seu sítio original, no espaço urbano dos bairros da Glória, Cambuci, Vila Mariana. Das urbanizações mais antigas, as velhas construções são raras: a Cerâmica Sacoman, com sua grande chaminé, é referência espacial. Já existia na área onde foi implantado o Núcleo da Glória, onde os Sacoman Fraires produziam telhas, francesas.

Nas proximidades do Glória permanece o Museu do Ipiranga, neo-clássico, projeto do engenheiro arquiteto Tommaso Gaudenzio Bezzi, realizado pelo empreiteiro Luigi Pucci, e que é, hoje, o Museu Paulista, o mais popular, mais conhecido, mais visitado… No planejamento, urbano, incluiu-se, até, a determinação de eixo monumental, através da estudada “(...) estrada de communicação direta d’esta Cidade ao projetado monumento do Ypiranga”. O monumento já pensado desde 1823 por José Bonifácio, quando iniciou a arrecadação de fundos para construí-lo. Em 1882 foi desenhado, e edificado entre 1885 e 1890. “Pucci devia ter, nesta época, uma organização muito bem aparelhada, a se julgar pelo fato de poder instalar uma máquina a vapor para a tração dos vagões que transportavam material, diretamente, da estação ferroviária ‘Inglesa’ para o canteiro da obra”. (Salmoni e Benedetti, 1981:48). Não se pode ignorar o empreendedorismo para realizá-lo, talvez mais simbólico do que o próprio edifício construído para ser o marco da Independência. Ocupou o Pasto da Glória, a área reservada para o monumento; ocupou não apenas o terreno, mas também pedreiros, capomastri, mestres, ferreiros, marmoristas, azulejistas, ladrilheiros, marceneiros, artistas, enfim grande variedade de oficiais, convocados entre os moradores das colônias da Glória e de São Caetano, celeiro das corporações desses ofícios anteriormente recrutados na Itália.

Tão majestoso, foi executado com toda a reserva de mão de obra que os Núcleos vizinhos constituíram, e construído com milhares de tijolos (que os italianos faziam): os tijolos sem marca, de olarias não identificadas ou fabricados no terreno da própria obra (Pereira, 1988:34), os da olaria de Carmine Perela, “C-P”; também com os de São Caetano, “S.C.”, e os da olaria de A. Proost Rodovalho, “A-P-R” (Museu Paulista da USP). Revela-se a intrincada relação entre comércio, produção, oportunidades imobiliárias e seus protagonistas, entre estes os anônimos imigrantes.

A Cerâmica São Caetano, que produzia os tijolos “S-C” era de Samuel Mesquita, também proprietário de grande parte da área do Núcleo da Glória, bem como de muitos outros imóveis em São Paulo, São Caetano e Santos. Foi dono de lotes que iriam formar o Monte Belo do Cambuci e o Morro da Polvora; tinha terrenos na Rua da Independência, quadras da Vila Deodoro e gleba da Rua Álvaro Neto. Além destes adquiriu da velha fábrica de louças, em 1879, no Núcleo Colonial de São Caetano, telhas, lajotas e tijolos, além das instalações ainda existentes que a Ordem de São Bento estabelecera em 1730. O Cel. Proost Rodovalho aparece como empreendedor comercial e imobiliário em 1897, participando do loteamento da Cidade Deodoro que coloca à venda “quadras pequenas ou grandes, à vontade do comprador”, por “preços baratissimos” (Pires, 2003:86). Rodovalho tinha olarias em sua propriedade e comercializava tijolos para construção do Museu; portanto vendia tijolos e terrenos. Os registros sobre Samuel Mesquita e Rodovalho demonstram a organização produtiva para fazer e vender tijolos; a exploração dos colonos, através da compra dos seus lotes e da exploração do seu trabalho, e a especulação imobiliária, reservando glebas para comercialização. Tudo gerava a concentração de capital baseada na exploração do parcelamento do solo, decorrente do Projeto dos Núcleos.

Olaria da Cia Melhoramentos São Caetano_1911/12

*Trecho extraído do livro "Núcleos Coloniais e Construções Rurais (2007) onde publico os estudos que faço desde 1977.

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